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Nautílus

Nautílus

A composição da música para este bailado da Ordem do Ó (na pessoa da Mara Morgado, coreógrafa e bailarina) ocorreu numa fase turbulenta, mas, como dizem os gregos, um Kairos da minha vida.

Isto porque estar associado de forma tão íntima a um espetáculo que explora o que é ser mulher, o feminino, em todas as suas lutas e conquistas, na sua história e relação com a memória, me diz muito. Tanto por ser neto, filho, irmão, companheiro e amigo de mulheres incrivelmente fortes e inspiradoras, como também porque, perto da estreia deste espetáculo, nasceu a minha filha.

Foi com a noção daquilo que a vida será para ela, em conjunto com as partilhas da Mara sobre o processo criativo, que decidi embarcar nesta proposta.

A música foi a diversos lugares ao longo desta sonoplastia. A falta de tempo para me dedicar de corpo e alma à composição obrigou-me a tomar decisões artísticas fora da minha zona de conforto, a fim de poupar tempo e tornar o processo mais eficiente. No final, sinto que isso me levou a explorar ambientes sonoros diferentes daqueles que habitualmente ocupo.

Por outro lado, a importância da temática e a duração do espetáculo levaram-me a considerar o poder da repetição e da iteração sobre a mesma matéria musical, incluindo a sua exploração "até ao tutano".

Etéreo

Uma composição textural e apoteótica, o final do espetáculo, propositadamente estática para acolher a voz ao vivo da brilhante Sara Belo, que, com explorações líricas, acrescentou uma camada de complexidade e emoção à música, transformando-a por completo. Este registo é apenas da parte instrumental, já que aquilo que a Sara faz ao vivo é improvisado no momento.

Fusão Vida-Morte

Nesta música pude explorar algo que volta e meia gosto de abordar: recolhas de música tradicional portuguesa antiga. Também, dentro do possível, incorporei canto coral feminino, para manter a corrente de feminilidade constante ao longo da peça. Em vários momentos deste bailado tentei incorporar um pouco da energia de "música de discoteca", já que o guião, por si só, remetia para um ambiente festivo, de dança, mas também para uma aura de força e luta.

Mnemosine

Um dia hei de comprar um dulcimer a sério, para não ter de me cingir apenas a instrumentos digitais. Ainda assim, achei que as improvisações que gravei nesta composição se adaptam bem ao contexto que queria explorar — o da memória, daquilo que é telúrico e submerso. Como noutras composições, recorri à gravação e digitalização a partir de fita magnética para colorir o som. Como Brian Eno previu, acho fascinantes as imperfeições da fita magnética, e recentemente a pureza do puramente digital afasta-me.